Realidade Virtual 

Por dentro da máquina de empatia: Realidade Virtual, Neurociência, Raça e Jornalismo

Ashley Rogers se sentou em uma cadeira giratória, usando um Zeiss VR e um fone de ouvido. Com eventos em um mundo invisível para o resto de nós, ela se mexeu, olhou em volta, encolheu-se,  gritou, esticou os braços  e, em seguida, reflexivamente estendeu os braços para cima em uma postura defensiva.

Ela estava experimentando Sisters, um aplicativo de realidade virtual com história de fantasmas. O aspecto notável de seu comportamento (além do fato de que ela era uma estudante não-inscrita, que só apareceu um dia depois de ouvir que estavam fazendo um experimento com a realidade virtual) era a pura fisicalidade de suas reações e seu senso de realização em um  mundo virtual.

Ashley Rogers usando Zeiss VR ONE
A experiência de realidade virtual executado pelo Colégio de Midia Reed. Gif feita por Shaleah Ingram

Porque realidade virtual: “Perguntar porque realidade virtual em 2015, é a mesma coisa que perguntar porque internet em 1996”

A Realidade Virtual mergulha o espectador em um ambiente de história a partir de uma perspectiva encarnada. Embora o mercado atual seja impulsionado pelo entretenimento e jogos, os primeiros praticantes como Nonny de la Pena da USC e o cineasta Chris Milk da VRSE estão explorando aplicativos jornalísticos e documentais, e estão descobrindo que o poder de contar histórias da RV pode estar no seu potencial como uma ferramenta de empatia. Nossa experiência em RV explora seu uso em relatórios sobre raça e justiça social, assuntos que são repleto de tensão e divisão.

Cansado de perpetuar a montagem de defesa do “objeto brilhante”, quero ressaltar que não estou usando a tecnologia pela tecnologia. Meu trabalho documental social sempre olhou para as novas tecnologias no intuito de levar as conversas em novas direções, e este passeio é a sua própria espécie de documentário social.

Usamos um “tour” em parte como uma referência para as aplicações comerciais iniciais em passeios panorâmicos de RV em 360°, e também como um aceno para o experimento do colega jornalista David Leonard baseado em localização, o Fatal Tour, que pede ao usuário encarnar uma narrativa de forma inesperada. Para este experimento, foi utilizado um software simples que estava disponível, hardware e uma narrativa improvisada para explorar um passeio das divisões em uma comunidade no aplicativo de RV “Fractured Tour.”

Ativistas protestando
O aplicativo Fractured Tour abre um panorama em 360° dos ativistas locais em Selma na ponte Edmund Pettus, protestando contra a reencenação da batalha confederada de Selma. Foto por Joel Beeson

A ciência da empatia e raça

Os neurocientistas estão explorando o uso de RV em termos de empatia e concretização à luz de novos esclarecimentos sobre o chamado “sistema de neurônios-espelho”. Estas células cerebrais disparam quando um primata realiza uma ação, mas também ativam quando um olha para o outro fazendo o mesmo ato, fazendo uma simulação virtual no cérebro, o que é uma habilidade essencial para a interação social e aprendizagem.

Alguns neurocientistas acreditam que este processo dá a realidade virtual seu poder de criar empatia e construir conexões entre as divisões de raça, sexo, idade e classe.

Existem essas divisões se um indivíduo está consciente ou não. Pesquisadores italianos aprenderam que a raça era um fator significativo das disparidades na forma como as pessoas se sentem a dor do outro, como “caucasianos reagindo de forma mais dramática a dor das pessoas brancas do que das pessoas africanas”.

Outro estudo confirmou isso e encontrou que o preconceito racial existia em uma percepção priori da dor de outras pessoas, tanto nos brancos como nos negros americanos, incluindo profissionais de saúde, supondo que os negros sentem menos dor que os brancos.

Uma pesquisa recente feita por cientistas britânicos e espanhóis descobriu que trocando de corpo virtualmente, reduz o viés e aumenta a empatia de “grupos de fora.” Neste estudo, quando as pessoas brancas praticamente experimentaram a “proprietária” de uma parte do corpo negro ou todo o corpo, preconceitos negativos contra os negros diminuiu.

Neurônios espelhados, “mimetismo” e o incomodativo terreno da empatia racial

Tudo sobre esse tipo de conversa, inclusive a parte cientifica, e carregada de tensão, ansiedades e realidades culturais e linguísticas entoxicadas do nosso mundo. Enquanto o potencial para criar empatia nestes experimentos é intrigante, até mesmo os cientistas usam o termo “mimético” e “possuir” um rosto ou corpo negro reabrem feridas do discurso racial sobre a colonização de corpos negros que poderia ser estressante ou desconfortável, o legado de Blackface e Minstresly e muitas formas de apropriação da cultura popular. Um dos pesquisadores, Manos Tsakiris, referencia o livro “Black Like Me” de John Howard Griffin que ressuscitou recentemente em resposta a uma postagem de Rachel Dolezal mascarada como uma mulher de cor.

Griffin, um jornalista católico, foi um texano branco que escureceu sua pele e viajou pelo Sul de Jim Crow em 1951 passando-se como um homem negro para experimentar em primeira mão as feridas do racismo. A maior revelação de Griffin foi simplesmente descobrir os privilégios de ser branco: “uma parte importante da minha vida diária foi gasta na procura de coisas básicas que todos os brancos fazem: achar um lugar para comer, ou algum lugar para beber um copo de água, um quarto para descansar, um lugar para lavar as mãos”.

Enquanto “Black Like Me” foi respeitado como um experimento jornalistico, o colunista Steve Rose, em seu artigo para o The Guardian “De Ali G para Rachel Dolezal: A história colorida de ficar negro”, apropriou-se de notas do livro de Grifin “A experiencia africano-americano já estava completa e foi fiel registrado por afro-americanos reais da época, não vamos esquecer”

Estes exemplos de tensões fizerem frente e centralizaram aquilo que nominamos de “Fractured Tour”. através do qual, não consideraremos a potencial cura racial através da “troca de corpos” em ambientes de realidade virtual, ao invés, nós finalmente decidimos explorar a concretização através de perspectiva e imersão com base na localização na história da nossa jornada.

O passado não foi para lugar nenhum

Neste ano, Selma, Alabama mais uma vez se tornaram o ponto inicial para atenção da midia 50 anos antes Dr. Martin Luther King liderou marchas pacíficas através da ponte Edmund Pettus encarando a brutalidade da polícia, galvanizando a vontade nacional para fortalecer os direitos de voto no Sul. Como na maioria das comemorações de aniversário, o marco histórico de Selma foi carregado pelas industria de mídia e pelos políticos para um consumo mais confortável, trivializando as idéias e as lições mais importantes, e obscurecendo profundamente  as injustiças persistentes que continuam a afligir o país. Apoiado pelo alvoroço da mídia em torno da visita do presidente e o lançamento do filme “Selma”, foi o fato de que 2015 marca o aniversário de 150 anos do fim da guerra mais mortal da américa, e com isso, a abolição da escravatura por meio da 13ª Emenda da Constituição dos EUA.

No final de abril, dois grupos de alunos e professores de cursos de jornalismo que, superficialmente, têm muito pouco em comum(A Universidade Estadual de Morgan, uma instituição urbana e historicamente negra e a Universidade do Oeste de Virginia, uma escola predominante branca em um estado rural), viajaram até Selma para um projeto de reportagem colaborativa chamado “Bridging Selma”. A mando de dois reitores, a Escola de Jornalismo Global da MSU, o comunicador DeWayne Wickham, a Universidade do Oeste de Virginia e o Colégio de Midia Reed de Maryanne Reed, embarcaram em uma exploração da história racial e social de Selma como uma reportagem experimental em justiça social.

Professor Ron Taylor da Universidade Estadual de Morgan
Professor Ron Taylor da Universidade Estadual de Morgan instrui estudantes de jornalismo em uma conferência de história durante o projeto em Selma. Foto por David Smith

A interrupção da história por ela mesma

Poucas horas depois de chegar em Selma, a cobertura da mídia pela morte de um homem africano naturalizado americano, Freddie Gray, pelas mãos da polícia providenciou um plano de fundo doloroso para nossa jornada. A experiência de imersão em Selma também prefigurou misteriosamente os trágicos acontecimentos que se desdobrariam nas semanas seguintes com o massacre de nove homens e mulheres na igreja Emanuel AME em Charleston, Carolina do Sul. À medida que editávamos as histórias sobre a bandeira confederada, supremacia branca, e da escravidão econômica, ficou claro que os fantasmas do passado que fraturam Selma não tinha ido para nenhum  lugar e continuam a assombrar profundamente nosso país e a nossa cultura.

O projeto também revelou a inadequação das convenções de jornalismo na cobertura sobre raça, classe e injustiça. Conforme os motins de Ferguson e Baltimore se desenrolavam, a crítica da cobertura jornalística tornou-se um dos principais ingredientes da narrativa emergente. O ciclo de notícias a cabo 24 horas e as convenções de longa data do jornalismo diário (noções de objetividade, a cobertura binárias, um relatório “equilibrado” ou simplesmente dizer “ambos os lados” da história) tornaram-se práticas que podem também servir como escudo para os jornalistas, educadores e alunos e que inibem a sua capacidade de enfrentar temas complexos e divisivos. Estas questões foram desvendar volubilidade nas ruas de Baltimore, mesmo quando se desenrolou calmamente em Selma no nosso próprio relatório. Como Wickham da Universidade Estadual de Morgan observou, “Nós já sabíamos disso, é por isso que estamos embarcando nesta sala de aula experimental. Nós queremos que nossos alunos fiquem desconfortáveis” Uma maneira de interromper a prática jornalística, práticas que inibem novas conversas, é interromper a formação da história.

Captura de tela de vídeo não processado em 360 ° do grupo gospel, The Angelic Harmonizers, na Capela de Zion AME Clinton Igreja em Selma, Alabama. Vídeo por Joel Beeson e Emily Pelland
Captura de tela de vídeo não processado em 360 ° do grupo gospel, The Angelic Harmonizers, na Capela de Zion AME Clinton Igreja em Selma, Alabama. Vídeo por Joel Beeson e Emily Pelland

Por dentro da máquina de empatia parte II

Este artigo serve como uma introdução para a paisagem cultural que informou, e desafiou, a nossa abordagem para a produção de um documentário social de realidade virtual sobre raça e racismo. Resta um experimento no processo e pode ser experimentado em 3D com um fone de ouvido de Realidade Virtual, como o Google Cardboard, Samsung RV Gear ou Zeiss RV One, ou pode ser visualizado em 2D em um dispositivo móvel.

Descobrimos que, para RV, tivemos de repensar todas as convenções sobre contar histórias que aprendemos e como nós vamos trabalhar em campo como os jornalistas. Nós temos mais perguntas do que respostas, mas temos documentado o processo de compartilhar abertamente nossa resolução de problemas para outros jornalistas e educadores que estão experimentando em Realidade Virtual. Em “Dentro da Máquina de Empatia Parte II: O fracted tour” nós o levaremos por trás das cenas e compartilhamos os passos que demos no making of do app, a partir das câmeras e software que usamos, técnicas de campo, os erros que cometemos, o storyboard e processo de tomada de decisão narrativa.

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Esta é uma tradução livre feita por Lingery para o blog Suprimatec do artigo feito por Joel William Beeson para o site Media Shift, para ver a publicação original em inglês clique aqui

 

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5 Thoughts to “Por dentro da máquina de empatia: Realidade Virtual, Neurociência, Raça e Jornalismo”

  1. Belo post, muito importante tratar desses assuntos com as novas abordagens que a RV tem permitido.

    1. Lyngeri

      Eu adorei a tradução dele, a realidade virtual poderá humanizar um pouco mais as pessoas, fazendo com que elas “sintam” na pele como uma outra pessoa se sente no meio da sociedade.

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