Sociedade 

A psicologia dos inevitáveis terremotos

  • Nepal sabia que um desastre estava a caminho. Porque não foi feito mais para se prepararem para isso?
  • Todos sabiam que um grande terremoto estava prestes a acontecer. E ninguém estava preparado para ele.
Nepal terremoto
Imprevisível e catastrófico, terremoto que matou muitas pessoas no Nepal já era de se esperar, mas nada foi feito!

Essa é a impressão que se tem quando você vasculha os arquivos do Nepali Times, que servem para fazer uma sequencia sinistra do terremoto de 7,8 graus de magnitude no último sábado (25/04). Em questão de segundos, o tremor reduziu marcos históricos em escombros, causando bilhões de dólares em danos, quase extinguindo vilas inteiras, tirando milhares de pessoas de suas casas e deixou ao menos cinco mil mortos no Nepal.

Um terremoto de magnitude 8.1 matou aproximadamente 11 mil pessoas na India e Nepal em janeiro de 1934, e registros históricos indicam que outro terremoto com magnitude similar era esperado no vale de Kathmandu em 70 ou 80 anos. As placas tectônicas e a geologia do Himalaia se tornaram uma dos maiores e imprevisíveis áreas de desastres naturais do mundo, com o passar das décadas ficou inevitável. E os profetas do fim do mundo vieram de várias maneiras, desde um panda vermelho ensinando como se proteger no dia de segurança anual de terremotos no Nepal, a jornalistas do Nepali Times que publicaram uma série de advertências ao longo dos anos:

Em 2004, logo depois de um terremoto no Iran, o Nepali Times publicou:

Dado o crescimento desenfreado de habitações frágeis em Kathmandu, o próximo grande terremoto vai matar pelo menos 100.000 pessoas. Aqueles que morrerem podem ser considerados sortudos.

Eles dizem que os terremotos não matam pessoas, mas as casas que caem em cima das pessoas mata. Mas tente dizer isso para os donos das casa privadas que adicionam outro andar para suas casas frágeis, ou subornam um funcionário para passar um projeto da casa para que eles possam poupar dinheiro em construção. A maioria de nós estão agindo como … avestruzes com a cabeça na areia quando se trata em se preparar para a próxima grande terremoto.

Em 2008, depois de um terremoto na China:

Meus pensamentos se voltaram imediatamente para o Nepal e ao impensável: um terremoto semelhante pode atingir Kathmandu. E um grande terremoto em Katmandu não é uma questão de se. É uma questão de quando….

Os governadores e responsáveis pelo Nepal devem começar a pensar em resgate, socorro, reabilitação, reequipamento de escolas e hospitais para que fiquem mais resistentes a abalos sísmicos e fazer cumprir as leis de zoneamento.

Em 2010, depois de um terremoto no Haiti:

Um terremoto atingindo o Vale de Kathmandu é como uma guerra nuclear. Se você pensar muito sobre isso irá enlouquecer.

Então, a maioria das pessoas tenta não se preocupar muito e continuam com suas vidas. …

Como no Haiti, não temos plano de preparação para desastres. O Nepal e o Haiti são dois dos países mais pobres em suas regiões. Ambos têm crescimento urbano não planejado e aleatório. [A capital haitiana] Porto Príncipe tem uma vantagem, mesmo que se o aeroporto ficar destruído, o alívio pode vir pelo mar. [Nota: Já o Nepal não tem litoral, e possui poucas estradas para tráfego pesado.]

A nossa única vantagem é saber que o próximo grande terremoto pode acontecer a qualquer dia.

E ainda neste ano:

O Nepal como uma nação não parece acreditar na Lei de Murphy, que afirma que qualquer coisa que pode dar errado vai dar errado, o que neste caso é a alta probabilidade de um terremoto. Ao invés de tomar medidas concretas para evitara catástrofe, acreditamos que uma pequena ajuda de astrologia e atitudes usuais ‘KeGarne’ [‘O que fazer?’] serão suficientes.

* * *

Esta semana finalmente o grande terremoto chegou, 81 anos após um maior ainda. Não é como se os nepaleses, e o governo, não estivessem fazendo nada para se preparar para o próximo terremoto; em parte devido a estes esforços, o número de mortos, tanto quanto se sabe agora, é na verdade menor do que as previsões mais terríveis. Mas por que não foram construídos mais edifícios resistentes, e por que não havia um plano melhor para amenizar a escassez de alimentos e água que agora ameaçam os sobreviventes? Há uma variedade de explicações, não menos importantes, o sistema disfuncional da política no Nepal, que se manteve polarizada desde a guerra civil de 10 anos do país terminou em 2006, e a rápida urbanização, descuidada e sem o correspondente reforço do governo nas normas de construção.

Mas há outro fator, ligado em todos os outros: atitudes dos nepaleses em relação ao terremoto que era eminente. Essas atitudes são refletidas nas profecias do Nepali Times, que lutam com o pensamento sobre o impensável. Não é diferente o desafio que todos nós enfrentamos a respeito das mudanças climáticas: Como você se preparar para uma ameaça tão remota e concreta?

“A população do Nepal não é ignorante,” disse ao The New York Times Susan Hough, uma pesquisadora geóloga e sismóloga que viajou até o Nepal. “Fatalidades acontecem quando os problemas estão longe do controle das pessoas, elas não podem fazer nada a respeito disso, ou melhor, eles pensam que não podem fazer nada”.

“Literalmente a três dias atrás era extremamente difícil perceber se o governo do Nepal estava interessado nesse negócio de preparação,” disse na segunda-feira dia 27 de abril a BBC Jon Bennett, que trabalhou junto com o governo britânico sobre os preparativos para o terremoto no Nepal. “Afinal, eles não passaram por um grande terremoto em 80 anos. E se você vive em um país pobre, tem muitas outras prioridades para tomar conta do que especulações em se vai ter ou não um terremoto.” A adição de três por cento nos custos de construção para torna-las mais resistentes a terremotos, no momento, é como um luxo ridículo.

Esse intervalo de 80 anos entre os grandes terremotos importa também. Em um estudo em 2012 no Jornal Australiano de Desastres e Traumas, pesquisadores na Universidade Chiba no Japão, encontraram moradores do Vale de Kathmandu que tiveram mais experiências com terremotos do que aquelas pessoas que estavam preocupadas sobre os danos que os terremotos causam, bem como estavam preparadas para os terremotos futuros. Os autores perceberam também que as pessoas em Kathmandu não tinham ainda vivenciado um terremoto acima de 6.8 de magnitude como o que atingiu o pais em 1988, muitas gerações se passaram desde a tragédia de 1934. A memória destes desastres foram retrocedendo e o pesquisadores sugeriram que o Nepal siga o exemplo do Japão em promover a preparação e proporcionar aos cidadãos simulações de grandes terremotos como acontece no caminhão abaixo:

Um levantamento feito nos moradores Indonésia, Nepal, Paquistão e Turquia em 2007 oferece esclarecimentos adicionais sobre como os residentes do Nepal – no caso desta pesquisa, aqueles que vivem em Katmandu – avaliou o risco de outro terremoto. Quando perguntado sobre qual a maior ameaça que possa afetar mais gravemente as suas vidas, os inquiridos no Nepal, apesar de viverem em um dos centros mundiais de atividade sísmica, tendiam a citar doenças graves e  desemprego, enquanto que nos outros três países citaram desastres naturais.

Ainda assim, muitos entrevistados no Nepal, que ficaram mais preocupados com terremotos quando questionados especificamente sobre desastres naturais, estavam bem conscientes do dano que poderia causar um terremoto. Mais de oitenta por cento disseram que um grande terremoto poderia custar suas casas, as vidas de seus familiares, ou sua própria vida. Mas alguns pareciam expressar fatalidade ou pelo menos falta de esperança. Sessenta e dois por cento dos entrevistados no Nepal disseram que sua casa não era forte o suficiente em suportar um grande terremoto. Dos que disseram isso, dois terços relataram que, mesmo com esse conhecimento, eles não estavam planejando fazer a sua casa mais segura ou se afastarem de casas mais inseguras.

Quando os pesquisadores perguntaram a este subconjunto de entrevistados se eles estavam preocupados se a sua casa desabasse por causa de um terremoto, oitenta e sete por cento disseram que sim. Em outras palavras, eles sabiam que sua casa não poderia aguentar um terremoto, e esta realidade os preocupava, mas eles não estavam planejando fazer nada sobre isso.

Isto é ainda mais surpreendente dado que mais de quarenta por cento dos entrevistados nepaleses informaram que eles iriam culpar a si mesmos – em vez de o governo ou construtores das casas, em contraste com muitos dos entrevistados na Turquia – seu um terremoto destruir suas casas e mataram alguns membros da família. Dificilmente qualquer nepalês, de fato, mencionou o governo. Foi, talvez, outro reflexo do desespero com as autoridades do país, mas também pode ser uma pista de como campanhas de preparação para terremotos no Nepal poderia ser melhorada.

A estratégia que os pesquisadores seguiram foi de ignorar o governo, o qual os moradores parecem não estar contanto em nada de qualquer maneira, ao invés disso, eles mesmos estarem treinando diretamente os artesãos locais e os próprios moradores, uma vez que muitos chefes de família acreditam que eles eram em ultima instancia responsáveis pela segurança de suas casas e dos membros da família.

Está é a abordagem que o editor do Nepali Times, Kunda Dixit defendia em janeiro de 2015:

“Quando (não se) um grande terremoto atingir o Nepal, não pergunte o que o governo pode fazer por você, pergunte o que q sua comunidade pode fazer,” escreveu Dixit, lamentando o “interminável impasse politico e o interminável desenvolvimento do país”, ele citou um engenheiro dizendo que dado tudo isso no Nepal “a melhor opção é descentralizar a gestão de riscos para a família, aldeia ou a nível municipal.”

E três meses depois o grande terremoto aconteceu.

  • O autor deste artigo é o escritor Uri Friedman editor associado sênior no The Atlantic.
  • Tradução e adaptação: Eder Oelinton editor de Suprimatec

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